sábado, 20 de março de 2010

Geni e o Zepelim

"Joga pedra na Geni...".
Você lembra da estória da prostituta que salvou a cidade, mas que foi de todo modo lapidada? Pois é, volto a um assunto delicado: as discussões e a repercussão sobre a morte de Glauco. Assim que soube os detalhes das notícias, menos de 24 horas após o ocorrido, meu primeiro pensamento foi direcionado à enxurrada de críticas que seriam lançadas à existência do Daime e à Reforma Psiquiátrica. Cada um foi buscando suas pedras, se armando de agressividade, cada um procurando a sua Geni, ora o culpado era o Daime, ora a lei de reforma que impede a internação dos loucos (!), ora o pai do assassino, que não cuidou do filho; pelo que andei lendo, alguém teve a ousadia de sugerir que o culpado da morte de Glauco e Raoni foi o próprio Glauco! Pasmém, a que ponto chegamos.
Improvisamente, depois da novela das 8 da Globo, todos nos transformamos em doutores, em psiquiatras. Ouvi delegados fazendo diagnóstico, parentes e advogados mais ou menos tarimbados, falando em surto psicótico, alucinação, jornalistas disparando leituras apressadas, repletas de jargões técnicos. Simples, não é?
Quantas pessoas que jamais beberam um copo de Daime, ou de Vegetal, isto é, de Ayahuasca, vomitaram condenações, críticas, julgamentos, embebidos de preconceito, moralismo, ideias que são tanto ingênuas quanto perniciosas.
Talvez para entender um pouco desta misteriosa substância será necessário beber um, dois, três, cem copos da bebida de gosto amargo, bebida sagrada para os povos da floresta e, vale lembrar, de uso permitido e regulamentado pelo próprio CONAD em rituais religiosos. Por quê insistir com a linguagem pobre e sensacionalista que fala de "droga", substância "alucinógena"? Então, se ouço tais falas, posso concluir que o governo brasileiro autoriza e libera o uso de uma droga alucinógena...ou não?
Os estudiosos preferem a expressão 'substância enteógena', que significa manifestação interior do divino, ou seja, que permite ou possibilita a conexão com o sagrado. É diferente, radicalmente diferente! Sei que há recomendações no sentido de se evitar que um sujeito com determinadas características psíquicas beba o chá. Quem fala nisso?
"Joga pedra na Geni..."
Quanto aos críticos da reforma da assistência psiquiátrica, é triste observar que ainda estamos neste estágio da discussão. Um articulista da Folha, falando em periculosidade, me faz pensar que a solução melhor para 'prevenir' a violência destas pessoas potencialmente perigosas é a internação compulsória e preventiva de todos, mas todos mesmo: loucos, usuários de substâncias psicoativas (maconha, cocaína, crack, daime, ecstasy, anfetamina, álcool...), moradores de rua, favelados (é muito perigoso morar em favela). Uma ideia ainda melhor seria a construção de um muro alto, bem alto, em volta de todas as favelas nas cidades do Brasil! Eu, por via das dúvidas, internaria também os policiais, que andam armados, podem atirar - isso é perigoso. Colocaria dentro também os torcedores mais exaltados de futebol, os punks, os desempregados, pensando bem até os colunistas, porque suas opiniões podem ferir, podem ser perigosas. Ficariam de fora os intelectuais, a maior parte deles é inofensiva; os psicólogos e os psiquiatras (alguém precisa responder pelo diagnóstico). Minha companheira me recorda que um tal de Simão Bacamarte já havia proposto algo de semelhante...que pena! Queria ser original.
Neste drama que se consumou, um dos traços característicos foi a falta de atenção, a displicência, a surdez na captação dos sinais que uma pessoa em grave dificuldade transmitiu. Onde estava sua família? Para onde olhava? Agora é fácil jogar uma pedra, mas onde estávamos nós quando tudo aconteceu? Talvez cada um cuidasse do próprio jardim, ou do próprio umbigo, ou estivesse narcotizado pelo Big Brother da vez. Talvez. É muito fácil agora apontar o dedo, encontrar um culpado, escrever matérias sensacionalistas que vendem um mundo de jornais. Quem quer, de fato, refletir em profundidade? Se você quer, pode-se tentar uma discussão franca, honesta, nada oportunista.
E se quiser, jogue uma rosa pra Geni.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Violência urburra mata Glauco

Pois é, acordei hoje com a tristeza que a morte de alguém querido costuma trazer. Não conhecia a pessoa Glauco, apenas parte de seu trabalho. Lembrei da alegria e do descompromisso que sentia ao ler suas tirinhas mais que inteligentes. Como é que pode alguém tão especial encontrar uma morte tão brutal? O sujeito está em casa, com a mulher, os filhos, de repente é surpreendido por criminosos. É tudo tão surreal! A casa, o lar, aquele lugar quente, protegido, feito para acolher, que vira lugar de medo, violência e morte!
Lembrei de quando morei em Osasco, daquele tempo difícil que passei em uma casa perdida, em uma cidade perdida, cidade-dormitório. Lembro perfeitamente que os anjos da guarda faziam "hora extra"toda vez que eu retornava à casa após trabalhar no Curso Anglo. Tinha que atravessar uma galeria, com muita velocidade, depois de controlar onde a vista alcança:ninguém suspeito, era hora de passar. Às vezes chegando do outro lado eu me deparava com o ladrão, revólver em punho, que já tinha escolhido outra vítima... dei sorte! Mas, isso é vida? Viver com a certeza do perigo, perigo estúpido, na rua, na escola, no trabalho, na própria casa! Não como dizia Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas:"viver é negócio muito perigoso"...não, não assim, mas como violência besta, gratuita, desproposital.
Osasco acorda hoje mais feia (como se isso fosse possível), mais triste, mais cinzenta. O Brasil "do bem" perde mais um aliado. O Brasil das autoridades finge que foi só um acidente algo que já faz parte do cotidiano de muitos cidadãos sem sobrenome. É certo que, se perguntados, os políticos de plantão, corruptos do paletó pra dentro, lamentarão o episódio lamentável, e retornarão à farra das suas casas protegidas em bairros hollywoodianos...Maldita hipocrisia!
Hoje, em alguns bares da Vila Madalena, amigos e (des) conhecidos irão beber e brindar à Glauco, em outros cantos da cidade irmãos de fé irão beber um copo de daime, recordando o líder espiritual que inspirou, em muitos, serenidade e compreensão.
Espero que a família encontre conforto e suporte de amigos verdadeiros. Da minha parte, um abraço