Memórias
do Kosovo
Não
havia lugar possível. Quando o exército sérvio chegou, decidido a
aniquilar tudo, sabíamos
que a vida era questão de horas.
Para
as mulheres, restava uma única possibilidade, a de servir à fome
animal dos invasores – servir ou morrer. Não havia piedade
naqueles rostos frios: na verdade eram já mortos, sem o saber. Não
lhes sobrava nada que nos permitisse chamá-los
humanos. Máquinas
de dor e morte.
Quanto
a nós,
os homens, parece que eles se deleitavam em prorrogar nosso
sofrimento. Assim, como quem escolhe um par de tênis,
nos chamavam um a um, e nos levavam para um lugar ali, depois da
esquina, longe de olhos mas não de ouvidos. Em seguida se ouviam os
disparos, às vezes disparos, gritos e mais disparos.
Era
quase noite quando, talvez cansados da brincadeira, resolveram
liquidar todos os homens de uma só
vez. Éramos
setenta ou oitenta, colocaram-nos uma espécie de capuz e nos levaram
a um local um pouco distante. Lembro-me que gargalhavam, se divertiam
com aqueles de nós
que demonstravam mais medo.
Pensei
nos meus vizinhos, que também eram sérvios, com os quais passei uma
infância
feliz na minha Pristina. Não parecíamos
diferentes: àquela época éramos ambos humanos. Será
que Dragan era também parte da milícia
? Não posso imaginá-lo
enquanto caça kosovaros de casa em casa...
Chegamos.
É
o ponto final. Pedem que fiquemos próximos, quase abraçados. Alguém
grita fogo e o cheiro de pólvora,
misturado ao som dos tiros, é o que domina a minha mente.
Não
sei como, mas acabei debaixo de uma pilha de mortos. A ordem era não
deixar sobreviventes, por isso zelosamente um deles controlava corpo
a corpo e atirava na cabeça. Meu capuz era muito largo e folgado,
desse modo os dois projéteis furaram o vazio. Imagino que quisessem
carregar menos peso – ainda descarregaram duas ou três
metralhadoras no amontoado de corpos.
Foi
então que destroçaram estes ossos do meu braço. Nem me permiti
gritar, apenas apertei meus dentes e segurei a respiração.
Quieto,
quase morto, esperei que o silêncio
fosse soberano. Ninguém sabe o que pensei. Decidi levantar a cabeça,
era o vazio, somente o cheiro indistinto de morte. Comecei a
caminhar, buscando um lugar familiar. Foram doze horas de estrada,
medo e dor. Quando cheguei, ouvi uma voz conhecida e desmaiei.
Está
bem assim, doutor, ou o senhor quer saber algo mais?