cairam também certezas, esperanças, ilusoes
Os cabelos que ja nao havia
roubavam os traços tenues da minha
condiçao de mulher
e me ofereciam, nua,
aos olhares piedosos dos passantes,
reduzindo-me à minha unica realidade possivel,
a de doente,
doente de cancer
como se, com as bolas de cabelo que se desprendiam,
aos montes,
se despegasse de mim meu ser mulher,
mae, amante, filha
- era uma doença que tomava meu corpo,
minha casa, meus pensamentos e meu sono
ninguém podia compreender,
talvez Paola, Elisabetta,
ou as amigas que sabiam - como memoria -
o que eu passava
O cancer mata,
mas a ignorancia mata mais,
a indiferença fere e oprime,
a piedade humilha
Era como caminhar em uma gruta escura,
sem lanternas, sem ideias,
sem forças para caminhar
O frio do inverno, da gruta,
do saber médico -
feito de vereditos
me deixava impotente e breathless (sem respiro!)
A gruta, para quem a atravessa,
configura outro nascimento,
um parto, um vir à luz
Apos meses assim,
é quase um presente sorrir,
é uma vitoria gargalhar - igual criança, sem freios
Agora tenho outras coisas na cabeça:
cabelos, por exemplo!
Ideias, metas, um caminho a construir