domingo, 24 de agosto de 2014

Memórias do Kosovo


Não havia lugar possível. Quando o exército sérvio chegou, decidido a aniquilar tudo, sabíamos que a vida era questão de horas.
Para as mulheres, restava uma única possibilidade, a de servir à fome animal dos invasores – servir ou morrer. Não havia piedade naqueles rostos frios: na verdade eram já mortos, sem o saber. Não lhes sobrava nada que nos permitisse chamá-los humanos. Máquinas de dor e morte.
Quanto a nós, os homens, parece que eles se deleitavam em prorrogar nosso sofrimento. Assim, como quem escolhe um par de tênis, nos chamavam um a um, e nos levavam para um lugar ali, depois da esquina, longe de olhos mas não de ouvidos. Em seguida se ouviam os disparos, às vezes disparos, gritos e mais disparos.
Era quase noite quando, talvez cansados da brincadeira, resolveram liquidar todos os homens de uma só vez. Éramos setenta ou oitenta, colocaram-nos uma espécie de capuz e nos levaram a um local um pouco distante. Lembro-me que gargalhavam, se divertiam com aqueles de nós que demonstravam mais medo.
Pensei nos meus vizinhos, que também eram sérvios, com os quais passei uma infância feliz na minha Pristina. Não parecíamos diferentes: àquela época éramos ambos humanos. Será que Dragan era também parte da milícia ? Não posso imaginá-lo enquanto caça kosovaros de casa em casa...
Chegamos. É o ponto final. Pedem que fiquemos próximos, quase abraçados. Alguém grita fogo e o cheiro de pólvora, misturado ao som dos tiros, é o que domina a minha mente.
Não sei como, mas acabei debaixo de uma pilha de mortos. A ordem era não deixar sobreviventes, por isso zelosamente um deles controlava corpo a corpo e atirava na cabeça. Meu capuz era muito largo e folgado, desse modo os dois projéteis furaram o vazio. Imagino que quisessem carregar menos peso – ainda descarregaram duas ou três metralhadoras no amontoado de corpos.
Foi então que destroçaram estes ossos do meu braço. Nem me permiti gritar, apenas apertei meus dentes e segurei a respiração.
Quieto, quase morto, esperei que o silêncio fosse soberano. Ninguém sabe o que pensei. Decidi levantar a cabeça, era o vazio, somente o cheiro indistinto de morte. Comecei a caminhar, buscando um lugar familiar. Foram doze horas de estrada, medo e dor. Quando cheguei, ouvi uma voz conhecida e desmaiei.

 Está bem assim, doutor, ou o senhor quer saber algo mais?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014


Velhos conhecidos


Éramos sete, perdidos, caminhando descalços na areia fina do lago frio. Talvez sete, as horas, naquela que era a hora mais úmida do dia. Nossos corpos dançavam uns para os outros, jogos de sedução pouco explícitos, lançados assim meio sem querer no espaço deserto da praia. Patos. O milagre único da criação do dia, o rebentar do amanhecer, sol soberano explodindo aos poucos, como o segredo do vinho que embriaga lentamente.
A colina tinha o poder de revelar este mistério, com a calma que nos falta agora, um dedo de luz por vez, daí que nossos olhos se fechavam para que se pudesse ver melhor.
Alguém propôs um jogo estranho com as sombras do sol filtradas pelas nossas mãos. Olhos cerrados, cores que pipocavam como vagalumes, raios ou fogos e o encantamento nos tornava de novo crianças.
Não sei quanto tempo permanecemos ali, imóveis, jogando as mãos com velocidades diferentes contra o sol, mas lembro que senti forte o cheiro de uma mulher suada, perto, e é como se eu pudesse respirar com ela e falar diretamente com seu coração.
Comecei a cantar, palavras doces na minha língua mestiça. Tremiam todas, voz, mãos, certezas. Tímido, procurei sem coragem de abrir os olhos, talvez para não quebrar o encanto, as mãos daquela mulher. Frias, secas, dedos longos e discretos, contidos. Não sei quem de nós fez meio giro e nos colocou frente a frente, mas o abraço foi inevitável.
Sabe o que nos dissemos? Com as pobres palavras que conheço, nada! No meio do meu abraço percebia um corpo que tremia, tremia de um frio glacial, frio de alma, imagino, porque a temperatura em volta era confortável.
Seu coração era como se estivesse dentro do meu peito. Sensação de primeira vez, de reencontro depois da longa ausência, de amor descoberto como tesouro que se acha no fim da vida.

Os relógios que existem não têm condições de registrar um abraço assim, porém sei – e não serve que alguém me prove o contrário – que se passaram meses, quem sabe anos. Sei, porque vivi e guardei em cada músculo de meu corpo as marcas daquele encontro.   

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Gunna e João



Gunna tinha acabado de conhecê-lo, através de um amigo comum. João era um belo tipo e ela gostou muito de vê-lo jogando capoeira na beira-mar de Barcola.
A capoeira bem jogada despertava a curiosidade dos triestinos que iam passando pela praia. Era uma festa, diversão e arte para os dois brasileiros, que riam continuamente entre uma acrobacia e outra.
Com Gunna era diferente. Ela já conhecia a capoeira da Bahia, onde vivera durante alguns meses e estava ali principalmente para matar as saudades daquele Brasil tão distante da sua Islândia. Aliás, dizem que na Islândia há apenas três coisas dignas de nota: os gêisers, o branco infinito da neve e a beleza excepcional das mulheres! Gunna era, de fato, belíssima!
Eram quase sete horas quando o treino acabou. O amigo se foi, deixando Gunna e João a sós, na companhia dos barcos que se tocavam no ritmo ora desajeitado dos ventos, ora cadenciado das marés.
Os dois olhavam em silêncio o pipocar das primeiras estrelas que surgiam ao entardecer. Ela reparou que estavam sós, últimos personagens de um dia comum de primavera.
Sem nada dizer, tirou os sapatos, calça, camisa. Nua, caminhou segura em direção ao frio mar. Mergulhou com graça e se movia como se fosse, ela também, uma parte do Adriático. Seu corpo, farto em carnes e muito claro, era apreciado cada vez mais por João, que estranhava um pouco a desinibição da sua nova amiga.
Ele ainda hesitou uns instantes quando percebeu que ela o chamava. Olhou em torno, meio envergonhado, despiu-se e correu até Gunna, fazendo um salto mortal antes de se precipitar na água – senão não seria o mesmo João!
Se sabe que o frio faz aproximar os corpos, mas se sabe também que só o desejo os mantém encaixados. Eram carinhos, depois beijos, risos e brincadeiras de água, até que seus corpos quisessem mais, sem limites.
Passaram bem uma hora se descobrindo e se misturando, abraçados pelo mar, e nem preceberam quando o tardio turista japonês se aproximou e filmou tudo com a sua super-mini-zoom filmadora...

 Trieste, deles, não teve mais notícia, parece que voltaram, cada um a seu país. A cidade agradecida se recorda com saudade dos amores furtivos de fim-de-tarde, disseminados sem escrúpulos em terra e mar.