Gunna e João
Gunna
tinha acabado de conhecê-lo,
através de um amigo comum. João
era um belo tipo e ela gostou muito de vê-lo
jogando capoeira na beira-mar de Barcola.
A
capoeira bem jogada despertava a curiosidade dos triestinos que iam
passando pela praia. Era uma festa, diversão
e arte para os dois brasileiros, que riam continuamente entre uma
acrobacia e outra.
Com
Gunna era diferente. Ela já
conhecia a capoeira da Bahia, onde vivera durante alguns meses e
estava ali principalmente para matar as saudades daquele Brasil tão
distante da sua Islândia.
Aliás, dizem que na
Islândia há
apenas três coisas dignas de nota: os gêisers, o branco infinito da
neve e a beleza excepcional das mulheres! Gunna era, de fato,
belíssima!
Eram
quase sete horas quando o treino acabou. O amigo se foi, deixando
Gunna e João a sós,
na companhia dos barcos que se tocavam no ritmo ora desajeitado dos
ventos, ora cadenciado das marés.
Os
dois olhavam em silêncio o pipocar das primeiras estrelas que
surgiam ao entardecer. Ela reparou que estavam sós, últimos
personagens de um dia comum de primavera.
Sem
nada dizer, tirou os sapatos, calça, camisa. Nua, caminhou segura em
direção ao frio mar. Mergulhou com graça e se movia como se fosse,
ela também, uma parte do Adriático. Seu corpo, farto em carnes e
muito claro, era apreciado cada vez mais por João,
que estranhava um pouco a desinibição
da sua nova amiga.
Ele
ainda hesitou uns instantes quando percebeu que ela o chamava. Olhou
em torno, meio envergonhado, despiu-se e correu até Gunna, fazendo
um salto mortal antes de se precipitar na água
– senão
não
seria o mesmo João!
Se
sabe que o frio faz aproximar os corpos, mas se sabe também que só
o desejo os mantém encaixados. Eram carinhos, depois beijos, risos e
brincadeiras de água, até
que seus corpos quisessem mais, sem limites.
Passaram
bem uma hora se descobrindo e se misturando, abraçados pelo mar, e
nem preceberam quando o tardio turista japonês
se aproximou e filmou tudo
com a sua super-mini-zoom filmadora...
Trieste,
deles, não teve mais
notícia,
parece que voltaram, cada um a seu país.
A cidade agradecida se recorda com saudade dos amores furtivos de
fim-de-tarde, disseminados sem escrúpulos em terra e mar.
Gostei desse, por enquanto, especialmente por algumas pérolas como "os barcos que se tocavam no ritmo ora desajeitado dos ventos, ora cadenciado das marés". Vou continuar explorando quando estiver à toa.
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