Velhos
conhecidos
Éramos
sete, perdidos, caminhando descalços na areia fina do lago frio.
Talvez sete, as horas, naquela que era a hora mais úmida
do dia. Nossos corpos dançavam uns para os outros, jogos de sedução
pouco explícitos,
lançados assim meio sem querer no espaço deserto da praia. Patos. O
milagre único
da criação
do dia, o rebentar do amanhecer, sol soberano explodindo aos poucos,
como o segredo do vinho que embriaga lentamente.
A
colina tinha o poder de revelar este mistério, com a calma que nos
falta agora, um dedo de luz por vez, daí
que nossos olhos se fechavam para que se pudesse ver melhor.
Alguém
propôs
um jogo estranho com as sombras do sol filtradas pelas nossas mãos.
Olhos cerrados, cores que pipocavam como vagalumes, raios ou fogos e
o encantamento nos tornava de novo crianças.
Não
sei quanto tempo permanecemos ali, imóveis,
jogando as mãos
com velocidades diferentes contra o sol, mas lembro que senti forte o
cheiro de uma mulher suada, perto, e é como se eu pudesse respirar
com ela e falar diretamente com seu coração.
Comecei
a cantar, palavras doces na minha língua
mestiça. Tremiam todas, voz, mãos,
certezas. Tímido,
procurei sem coragem de abrir os olhos, talvez para não
quebrar o encanto, as mãos
daquela mulher. Frias, secas, dedos longos e discretos, contidos. Não
sei quem de nós
fez meio giro e nos colocou frente a frente, mas o abraço foi
inevitável.
Sabe
o que nos dissemos? Com as pobres palavras que conheço, nada! No
meio do meu abraço percebia um corpo que tremia, tremia de um frio
glacial, frio de alma, imagino, porque a temperatura em volta era
confortável.
Seu
coração
era como se estivesse dentro do meu peito. Sensação
de primeira vez, de reencontro depois da longa ausência,
de amor descoberto como tesouro que se acha no fim da vida.
Os
relógios
que existem não
têm
condições
de registrar um abraço assim, porém sei – e não
serve que alguém me prove o contrário
– que se passaram meses, quem sabe anos. Sei, porque vivi e guardei
em cada músculo
de meu corpo as marcas daquele encontro.
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