sexta-feira, 24 de janeiro de 2014


Velhos conhecidos


Éramos sete, perdidos, caminhando descalços na areia fina do lago frio. Talvez sete, as horas, naquela que era a hora mais úmida do dia. Nossos corpos dançavam uns para os outros, jogos de sedução pouco explícitos, lançados assim meio sem querer no espaço deserto da praia. Patos. O milagre único da criação do dia, o rebentar do amanhecer, sol soberano explodindo aos poucos, como o segredo do vinho que embriaga lentamente.
A colina tinha o poder de revelar este mistério, com a calma que nos falta agora, um dedo de luz por vez, daí que nossos olhos se fechavam para que se pudesse ver melhor.
Alguém propôs um jogo estranho com as sombras do sol filtradas pelas nossas mãos. Olhos cerrados, cores que pipocavam como vagalumes, raios ou fogos e o encantamento nos tornava de novo crianças.
Não sei quanto tempo permanecemos ali, imóveis, jogando as mãos com velocidades diferentes contra o sol, mas lembro que senti forte o cheiro de uma mulher suada, perto, e é como se eu pudesse respirar com ela e falar diretamente com seu coração.
Comecei a cantar, palavras doces na minha língua mestiça. Tremiam todas, voz, mãos, certezas. Tímido, procurei sem coragem de abrir os olhos, talvez para não quebrar o encanto, as mãos daquela mulher. Frias, secas, dedos longos e discretos, contidos. Não sei quem de nós fez meio giro e nos colocou frente a frente, mas o abraço foi inevitável.
Sabe o que nos dissemos? Com as pobres palavras que conheço, nada! No meio do meu abraço percebia um corpo que tremia, tremia de um frio glacial, frio de alma, imagino, porque a temperatura em volta era confortável.
Seu coração era como se estivesse dentro do meu peito. Sensação de primeira vez, de reencontro depois da longa ausência, de amor descoberto como tesouro que se acha no fim da vida.

Os relógios que existem não têm condições de registrar um abraço assim, porém sei – e não serve que alguém me prove o contrário – que se passaram meses, quem sabe anos. Sei, porque vivi e guardei em cada músculo de meu corpo as marcas daquele encontro.   

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