terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Gunna e João



Gunna tinha acabado de conhecê-lo, através de um amigo comum. João era um belo tipo e ela gostou muito de vê-lo jogando capoeira na beira-mar de Barcola.
A capoeira bem jogada despertava a curiosidade dos triestinos que iam passando pela praia. Era uma festa, diversão e arte para os dois brasileiros, que riam continuamente entre uma acrobacia e outra.
Com Gunna era diferente. Ela já conhecia a capoeira da Bahia, onde vivera durante alguns meses e estava ali principalmente para matar as saudades daquele Brasil tão distante da sua Islândia. Aliás, dizem que na Islândia há apenas três coisas dignas de nota: os gêisers, o branco infinito da neve e a beleza excepcional das mulheres! Gunna era, de fato, belíssima!
Eram quase sete horas quando o treino acabou. O amigo se foi, deixando Gunna e João a sós, na companhia dos barcos que se tocavam no ritmo ora desajeitado dos ventos, ora cadenciado das marés.
Os dois olhavam em silêncio o pipocar das primeiras estrelas que surgiam ao entardecer. Ela reparou que estavam sós, últimos personagens de um dia comum de primavera.
Sem nada dizer, tirou os sapatos, calça, camisa. Nua, caminhou segura em direção ao frio mar. Mergulhou com graça e se movia como se fosse, ela também, uma parte do Adriático. Seu corpo, farto em carnes e muito claro, era apreciado cada vez mais por João, que estranhava um pouco a desinibição da sua nova amiga.
Ele ainda hesitou uns instantes quando percebeu que ela o chamava. Olhou em torno, meio envergonhado, despiu-se e correu até Gunna, fazendo um salto mortal antes de se precipitar na água – senão não seria o mesmo João!
Se sabe que o frio faz aproximar os corpos, mas se sabe também que só o desejo os mantém encaixados. Eram carinhos, depois beijos, risos e brincadeiras de água, até que seus corpos quisessem mais, sem limites.
Passaram bem uma hora se descobrindo e se misturando, abraçados pelo mar, e nem preceberam quando o tardio turista japonês se aproximou e filmou tudo com a sua super-mini-zoom filmadora...

 Trieste, deles, não teve mais notícia, parece que voltaram, cada um a seu país. A cidade agradecida se recorda com saudade dos amores furtivos de fim-de-tarde, disseminados sem escrúpulos em terra e mar.  

2 comentários:

  1. Gostei desse, por enquanto, especialmente por algumas pérolas como "os barcos que se tocavam no ritmo ora desajeitado dos ventos, ora cadenciado das marés". Vou continuar explorando quando estiver à toa.

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